ArCaDia 7

Apresentação

“Habitar na Encruzilhada. Epistemologias a partir do Sul Global” convida à reflexão sobre os modos de habitar e os desafios da produção social do habitat, num contexto marcado por mobilidades, múltiplas crises e persistentes assimetrias socioespaciais, decorrentes dos processos de urbanização desigual e da expansão global do capitalismo neoliberal.

“Habitar na Encruzilhada. Epistemologias a partir do Sul Global” convida à reflexão sobre os modos de habitar e os desafios da produção social do habitat, num contexto marcado por mobilidades, múltiplas crises e persistentes assimetrias socioespaciais, decorrentes dos processos de urbanização desigual e da expansão global do capitalismo neoliberal.

A encruzilhada é entendida enquanto território ou lugar de encontros, mas também como categoria epistemológica que permite compreender as disputas e as possibilidades que atravessam a produção do espaço e do conhecimento, em que se cruzam diferentes trajetórias históricas, políticas, socioeconómicas e culturais, e onde emergem tensões e conflitos, mas também respostas colaborativas, emancipadoras e alternativas aos modelos dominantes. Na encruzilhada afirmam-se campos epistemológicos, políticos, técnicos e interativos que desafiam as narrativas hegemónicas, questionando as hierarquias coloniais, capitalistas e neoliberais que historicamente estruturam e impõem formas de ler, narrar e intervir nos territórios.

A partir das margens urbanas e das periferias, e com foco no Sul Global, evocam-se saberes situados, dos territórios e das comunidades, bem como práticas coletivas e colaborativas de produzir e habitar a cidade e o mundo. Ao mesmo tempo, reivindica-se o direito à habitação e à cidade, bem como o direito à arquitetura e ao urbanismo, à assessoria/assistência técnica, em articulação com outras áreas disciplinares, sublinhando a necessidade de repensar práticas sobre, para e a partir das margens urbanas, assentes na interação dialógica, no compartilhamento de saberes e em outras formas coletivas de produção social do habitat, como o mutirão, no Brasil, ou o djunta-mo, em Cabo Verde e nas comunidades cabo-verdianas em Portugal.

Entende-se aqui o Sul Global não apenas como uma localização geográfica, mas como uma condição histórica, política e epistemológica produzida por relações desiguais de poder que atravessam tanto os países do Sul como territórios marginalizados do Norte Global.

O ArCaDia 7 convoca-nos a ler, pensar e conceber políticas e práticas na encruzilhada, reconhecendo as margens urbanas - periferias ou bairros autoproduzidos - a partir da diversidade de situações e de formas de intervenção e produção coletiva do habitat. Territórios onde se entrelaçam práticas de subsistência, ajuda mútua e autogestão, mas também formas cotidianas de resiliência e resistência, que denunciam a presença desigual do Estado e os múltiplos atravessamentos interseccionais das crises e dos seus impactos socioterritoriais, incidindo particularmente sobre populações e grupos vulnerabilizados.

‘Habitar na Encruzilhada’ propõe aprender com os territórios e comunidades, refletindo a partir das práticas e dos processos que marcam a produção social do habitat nas margens urbanas, explorando epistemologias situadas, plurais e produzidas a partir e em diálogo com os saberes do Sul Global, valorizando perspetivas decoloniais, comunitárias e contra-hegemónicas. Convida a uma reflexão crítica sobre a arquitetura e o urbanismo enquanto campos disciplinares historicamente implicados em processos de modernização, colonialidade e produção de desigualdades, mas também sobre as potencialidades destes campos quando situados ao serviço da justiça espacial e da efetivação de direitos.

Neste sentido, pretende-se fomentar um espaço de diálogo e partilha de experiências, ações e intervenções na encruzilhada, que procure respostas mais assertivas, coletivas e politicamente comprometidas, assentes na coprodução do conhecimento entre a universidade, profissionais, movimentos sociais e organizações da sociedade civil e atores locais, bem como na ressignificação do papel das arquitetas, arquitetos e urbanistas no campo da ação coletiva e das lutas urbanas. Assumindo, no campo disciplinar da arquitetura e do urbanismo, as possibilidades para uma prática crítica, política e comprometida com processos de transformação socioespacial e com a construção de cidades mais justas, considerando, ainda, os desafios éticos, tecnológicos e políticos que atravessam a produção do conhecimento e a intervenção/ação socioterritorial.

‘Habitar na Encruzilhada’ é, assim, um convite a reconhecer as margens urbanas como espaços de produção de conhecimento, a afirmar a arquitetura e o urbanismo como campos comprometidos com a justiça espacial, o direito à habitação, o direito à cidade e a democratização do conhecimento. Trata-se também de tecer redes de cooperação académica, profissional e comunitária como caminhos para o diálogo entre saberes, territórios e práticas, na construção, legitimação e circulação de outras epistemologias e de futuros urbanos mais justos, plurais e emancipatórios.